Sobre carreiras não lineares, recomeços e as muitas versões que uma mulher pode carregar dentro da mesma história
Durante muito tempo, eu achei que carreiras não lineares eram trajetórias que ainda precisavam encontrar algum sentido. Para mim, uma trajetória profissional precisava fazer sentido quando contada em uma única linha.
Começo. Formação. Trabalho. Crescimento. Especialização. Reconhecimento.
Como se cada decisão precisasse confirmar a anterior e qualquer mudança de direção fosse uma espécie de contradição.
Mas a vida real raramente acontece dessa maneira.
Minha própria trajetória passou por tecnologia, projetos, qualidade, produtos, gestão, empreendedorismo, estudos e cuidado. Durante algum tempo, eu me perguntei como essas partes poderiam pertencer à mesma história.
Hoje, começo a enxergar de outra forma.
Talvez o problema nunca tenha sido ter caminhos diferentes.
Talvez tenha sido acreditar que uma pessoa precisa escolher apenas uma versão de si mesma para ser considerada coerente.
Carreiras não lineares também contam histórias coerentes
Mudar de emprego, função ou campo profissional não é exatamente uma exceção.
Dados longitudinais recentes do Bureau of Labor Statistics, dos Estados Unidos, ajudam a dimensionar isso. Entre pessoas nascidas entre 1980 e 1984, foram registrados, em média, 9,4 empregos diferentes entre os 18 e os 38 anos. Entre as mulheres, a média chegou a 9,5 empregos. É importante observar que são dados norte-americanos e não devem ser automaticamente transportados para a realidade brasileira, mas ajudam a questionar a ideia de uma carreira inteira construída dentro de uma única organização ou função.
Em uma geração anterior, acompanhada durante um período ainda maior, pessoas nascidas entre 1957 e 1964 chegaram a uma média de 12,7 empregos entre os 18 e os 56 anos.
E não é apenas o número de empregos que muda.
O próprio conteúdo das profissões está se transformando.
O Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, estima que mudanças tecnológicas, econômicas, demográficas e ambientais poderão provocar uma transformação equivalente a 22% dos empregos atuais até 2030.
A projeção considera aproximadamente 170 milhões de novas vagas criadas e 92 milhões deslocadas, resultando em saldo positivo de 78 milhões. Ao mesmo tempo, os empregadores consultados estimam que cerca de 39% das habilidades essenciais exigidas no trabalho deverão mudar até 2030.
Isso significa que aprender, desaprender, adaptar e combinar competências tende a fazer cada vez mais parte de uma vida profissional.
Não necessariamente porque alguém planejou uma grande reinvenção.
Às vezes, simplesmente porque o mundo mudou.
Recomeçar não significa começar do zero
Existe uma diferença importante entre começar novamente e começar sem nada. Já aprofundei essa ideia em Recomeçar profissionalmente não é começar do zero.
Quando mudamos de área, não deixamos todo o repertório anterior do lado de fora da porta.
Levamos conosco aquilo que aprendemos sobre pessoas, processos, problemas, comunicação, organização, tomada de decisão, negociação, erros, limites e possibilidades.
Na literatura sobre carreiras, essa ideia aparece há décadas.
O conceito de carreira proteana, desenvolvido por Douglas Hall, descreve uma trajetória conduzida mais pela própria pessoa e por seus valores do que exclusivamente por uma organização. Já os estudos sobre carreiras sem fronteiras consideram trajetórias que atravessam organizações, funções e contextos profissionais.
Mais recentemente, a teoria da construção de carreira passou a enfatizar algo que considero especialmente interessante: nós não apenas acumulamos empregos.
Nós construímos uma narrativa sobre eles.
Mark Savickas e outros pesquisadores trabalham com o conceito de adaptabilidade de carreira — a capacidade de lidar com tarefas profissionais, mudanças, transições e até rupturas ao longo da vida. A trajetória deixa de ser entendida apenas como uma sequência de cargos e passa a ser também uma história que a pessoa interpreta e reconstrói.
Isso muda bastante a pergunta.
Em vez de:
“O que essa experiência tem a ver com a próxima?”
podemos perguntar:
“O que essa experiência acrescentou à pessoa que seguirá para a próxima?”
Para as mulheres, nem toda mudança é apenas uma escolha profissional
Existe ainda outro elemento importante quando falamos sobre trajetórias femininas.
Nem todas as pausas, mudanças e desacelerações acontecem porque uma mulher decidiu simplesmente experimentar uma carreira diferente.
Há uma estrutura de responsabilidades em torno dela.
No Brasil, as mulheres dedicaram, em média, 21,3 horas semanais aos cuidados de pessoas e afazeres domésticos em 2022.
Entre os homens, foram 11,7 horas.
São quase dez horas semanais de diferença.

Tempo semanal dedicado a cuidados e afazeres domésticos no Brasil — IBGE/PNAD Contínua 2022.
Mesmo entre pessoas ocupadas, a diferença permanece: mulheres dedicavam aproximadamente 17,8 horas semanais a essas tarefas, ante 11 horas entre os homens.
O IBGE também apontou que, em 2022, 28% das mulheres ocupadas trabalhavam em jornada parcial de até 30 horas semanais, contra 14,4% dos homens.
Esses números ajudam a colocar algumas histórias profissionais em perspectiva.
Aquilo que muitas vezes aparece em um currículo apenas como uma pausa, uma redução de jornada ou uma mudança aparentemente desconectada pode esconder maternidade, cuidado de familiares, trabalho doméstico e responsabilidades que nunca chegaram ao LinkedIn.
E as pausas profissionais também têm gênero
Um estudo de 2024 do LinkedIn Economic Graph analisou informações de perfis em 16 países.
Globalmente, as mulheres apareciam com mais registros de pausas de carreira do que os homens. Quando havia informação sobre o motivo da pausa, a parentalidade em tempo integral correspondia a 33,6% dos registros femininos e a 7,3% dos masculinos.
No Brasil, a diferença foi ainda mais marcante nesse recorte:
29,4% das mulheres que informaram o tipo da pausa indicaram parentalidade em tempo integral, contra apenas 2,8% dos homens.

Parentalidade em tempo integral como motivo de pausa profissional entre usuários brasileiros que registraram o tipo da pausa — LinkedIn Economic Graph, 2024.
O próprio LinkedIn alerta, pela metodologia, que esses dados representam pessoas que utilizam a plataforma e registraram uma pausa no perfil — portanto, não correspondem a uma fotografia de toda a população brasileira.
Ainda assim, revelam uma diferença significativa na maneira como homens e mulheres atravessam determinadas fases da vida profissional.
No conjunto dos 16 países, as pausas femininas ligadas à parentalidade tiveram duração mediana de aproximadamente dois anos, enquanto entre os homens a mediana foi de um ano. As mulheres também registraram sua primeira pausa após uma mediana de 8,9 anos de trabalho, 1,4 ano antes dos homens.
E existe uma camada adicional.
Cuidar também cansa.
Uma análise do McKinsey Health Institute mostrou que cuidadores de adultos apresentavam prevalência elevada de sintomas de burnout. Entre pessoas que cuidavam de crianças, 22% das mulheres e 19% dos homens relataram níveis altos de burnout; mulheres também apresentaram níveis maiores de exaustão nesse grupo.
Por isso, nem sempre aquilo que parece falta de foco profissional é falta de foco.
Às vezes é excesso de responsabilidade.
Tecnologia e cuidado podem fazer parte da mesma pessoa
Durante muito tempo, profissões também foram apresentadas como identidades.
“Ela é da tecnologia.”
“Ela é da saúde.”
“Ela é empreendedora.”
“Ela trabalha com pessoas.”
Como se uma categoria automaticamente eliminasse as outras.
Mas competências não respeitam essas fronteiras tão bem quanto os organogramas.
Trabalhar com tecnologia pode desenvolver raciocínio analítico, resolução de problemas, gestão de projetos e capacidade de lidar com complexidade.
Cuidar pode desenvolver escuta, percepção, empatia, atenção e presença.
Empreender exige decisão, negociação, criatividade e tolerância à incerteza.
Estudar novamente exige curiosidade e humildade para assumir que ainda existe muito a aprender.
Quando essas experiências se encontram, elas não necessariamente competem.
Elas podem se complementar.
E isso se torna especialmente relevante em um mercado que, segundo o Fórum Econômico Mundial, continuará valorizando simultaneamente habilidades tecnológicas e competências humanas como pensamento criativo, resiliência, flexibilidade, agilidade, liderança e aprendizagem contínua.
Talvez o profissional do futuro não seja apenas aquele que sabe cada vez mais sobre uma única coisa.
Talvez também seja quem consegue construir pontes entre coisas que antes pareciam separadas.
Como descobrir o fio que conecta as suas diferentes versões?
Em vez de tentar eliminar partes da trajetória para produzir uma história perfeitamente linear, pode ser mais interessante procurar os padrões que aparecem repetidamente nela.
Algumas perguntas ajudam:
- O que aprendi em cada fase que ainda utilizo hoje?
- Que tipo de problema continuo gostando de resolver, mesmo quando o contexto muda?
- Quais habilidades aparecem em diferentes trabalhos e projetos?
- Que valores permanecem mesmo quando minha função muda?
- O que uma versão anterior de mim tornou possível para a versão atual?
Esse exercício se aproxima da perspectiva narrativa da construção de carreira: passado, presente e futuro deixam de ser capítulos isolados e passam a formar uma história à qual atribuímos significado.
Talvez você descubra que mudou de profissão, mas nunca deixou de ensinar.
Ou que saiu de uma área técnica para trabalhar com pessoas, mas continuou resolvendo problemas.
Ou que começou a empreender depois de anos em empresas e percebeu que muito do que parecia pertencer à “vida anterior” era exatamente o repertório necessário para a próxima fase.
Há muitas formas de ser inteira
Hoje eu não quero olhar para minhas diferentes versões tentando decidir qual delas é a verdadeira.
Todas foram.
Algumas ficaram por muitos anos.
Outras existiram apenas durante uma fase.
Algumas abriram caminhos que eu ainda nem sabia que percorreria.
E talvez seja justamente esse o ponto.
Inteireza não significa permanência.
Também não significa conseguir fazer tudo ao mesmo tempo.
Ser inteira pode significar reconhecer que nossa história é feita de partes diferentes sem precisar apagar nenhuma delas para que as demais façam sentido.
Podemos mudar sem negar aquilo que fomos.
Podemos aprender algo completamente novo sem considerar inútil tudo o que aprendemos antes.
Podemos recomeçar sem voltar ao zero.
E podemos descobrir novas formas de trabalhar, cuidar, criar, aprender e existir.
A carreira pode ter curvas.
A vida certamente terá.
E ainda assim a história continua sendo nossa.
Quantas versões de você já foram necessárias para chegar até aqui?
Referências
IBGE. Estatísticas de Gênero: Indicadores Sociais das Mulheres no Brasil, 3ª edição, 2024. Dados da PNAD Contínua sobre trabalho, cuidados e afazeres domésticos.
Bureau of Labor Statistics. National Longitudinal Survey of Youth. Dados sobre número de empregos ao longo da trajetória profissional.
LinkedIn Economic Graph Research Institute. Global Gender Gaps in Career Breaks, novembro de 2024. Análise de usuários de 16 países.
World Economic Forum. The Future of Jobs Report 2025.
McKinsey Health Institute. Dados sobre burnout e responsabilidades de cuidado, 2025.
Hall, Douglas T. Estudos sobre carreira proteana. Journal of Vocational Behavior.
Briscoe, Jon P.; Hall, Douglas T.; DeMuth, Rachel L. Frautschy. Protean and Boundaryless Careers: An Empirical Exploration. Journal of Vocational Behavior.
Savickas, Mark L. Estudos sobre construção e adaptabilidade de carreira e Life Design.

Eu não mudei de caminho. Eu fui juntando caminhos.

